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De “meu exército” à rixa com o alto comando das Forças Armadas: a nova encrenca de Bolsonaro

Bolsonaro e os ex-comandantes das Forças Armadas

O presidente Jair Bolsonaro demitiu o ministro da defesa e os três comandantes das Forças Armadas. Foto: Sergio Lima/ AFP

Desde o início do governo, em 2019, o presidente Jair Messias Bolsonaro (Sem Partido) se apressou em colocar em seus ministérios uma alta quantidade de militares. Seria o maior percentual entre os presidentes eleitos desde a redemocratização. Foi na ala militar que o ex-capitão buscou sua base de apoio, uma forma de se resguardar, em contrapartida à política de coalizão, muito criticada por ele em sua campanha eleitoral.

Três anos se passaram do seu governo. O cenário atual mostra não só Bolsonaro tendo que negociar com os partidos do Centrão e praticar o famoso jogo de coalizão, como tendo que conviver com uma indigesta relação com militares do alto escalão das Forças Armadas.

A encrenca da vez ocorreu nesta semana. Na segunda-feira (29), o então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, anunciou sua demissão do ministério. Em carta publicada no site do órgão, ele afirmou que dedicou “total lealdade” ao presidente ao longo dos dois anos em que esteve à frente da pasta. Ressaltou ainda que preservou as Forças Armadas como instituições de Estado.

Os bastidores, divulgados pela imprensa nacional, dão conta de que o presidente da República queria exercer influência política nos quartéis e ansiava que os militares expusessem apoio à política de seu governo, além de apoio público em questões que envolvem a pandemia, o que teria sido negado pelo alto escalão militar. Em março de 2021, o presidente chegou a chamar o exército de “Meu Exército”.

“Alguns querem que eu decrete lockdown, não vou decretar. Pode ter certeza de uma coisa: o meu exército não vai para a rua para obrigar o povo a ficar em casa. O meu exército é exército de vocês. Fiquem tranquilos no tocante isso aí”, afirmou para um grupo de apoiadores o presidente, que chegou a comparar o Lockdown decretado pelos governadores para conter a pandemia do novo coronavírus, em Estado de Sítio, afirmando que somente ele poderia tomar essa decisão.

Um dia depois da saída do ministro, os três comandantes das Forças Armadas também ficaram sob a mira de Bolsonaro. Ilques Barbosa, comandante da Marinha, Antônio Carlos Bermudez, da Aeronáutica, e Edson Pujol, do Exército foram demitidos, de uma só vez, fato antes nunca ocorrido desde a redemocratização do país.

De acordo com o Ministério da Defesa, as demissões ocorreram durante uma reunião na terça-feira (30), que teve a presença de Azevedo, dos três comandantes demitidos e do atual ministro da Defesa Walter Braga Neto.

Ainda na terça-feira (30), Bermudez se pronunciou sobre sua demissão, também afirmando que a Aeronáutica é uma instituição de estado.

“Portanto, prezados integrantes da Força Aérea, acreditem na relevância da nossa missão que, balizada pelos inarredáveis preceitos constitucionais, coopera para a soberania daquilo que nos cabe: o espaço aéreo. Mantenham o ânimo forte que nos move ao apoio social e o querer audaz para enfrentar os desafios do presente”, discursa Bermudez.

A saída de Azevedo do Ministério da Defesa levou à dança das cadeiras de outros ministérios, mas antes disso, já havia sido anunciada a saída de Ernesto Aráujo que estava à frente do Ministério de Relações Exteriores. Ainda na segunda-feira (29), o presidente Bolsonaro alterou seis cadeiras de seu governo. E assim ficaram definidas as pastas:

  • Ministério da Defesa- General Walter Souza Braga Netto
  • Ministério das Relações Exteriores – Embaixador Carlos Alberto Franco França
  • Ministério da Justiça e Segurança Pública – Delegado da Polícia Federal Anderson Gustavo Torres/ Ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal.
  • Casa Civil da Presidência da República – General Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira
  • Secretaria de Governo da Presidência da República – Deputada federal Flávia Arruda
  • Advocacia-Geral da União – André Luiz de Almeida Mendonça.

Bolsonaro é o comandante supremo das Forças Armadas, por ser ele o presidente da República. Mas o exército não é dele. A animosidade evidenciada nesta semana entre ele e generais mostra que o chefe do executivo não tem o controle que gostaria sobre os militares. Pelo menos os do alto escalão.

Cientista política Luciana Santana

Para a cientista política, Luciana Santana, Bolsonaro pode buscar apoio a militares de baixa patentes ou policiais, após rixa com alto escalão militar. Foto: Ufal

De acordo com a Doutora em Ciência Política, Luciana Santana, apesar de Bolsonaro mover esforços para manter amparo da ala militar, colocando generais em cargos de ministérios, por exemplo, os próprios militares, em sua maioria, “sempre foram muitos discretos. Com exceção de um ou outro militar que se sobressaía. Mas a grande maioria sempre com posição muito discreta, como deve ser em uma democracia, onde o papel das forças armadas está bem delimitado constitucionalmente”.

De acordo com o art.142 da Constituição Federal “as Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

“Provavelmente havia sim uma pressão por parte do presidente e de uma ala mais ideológica do governo, de que as Forças Armadas, ou pelo menos os membros que assumiram cargos no governo se posicionassem politicamente – tanto em relação ao próprio contexto político atual, como as últimas decisões do STF, como também sobre a própria pandemia e as decisões que vêm sendo tomadas de medidas mais restritivas”, expõe a cientista política, Luciana Santana.

Segundo ela, o aparente descontentamento entre o Governo Federal e as Forças Armadas refletiu em uma posição majoritária do alto comando do Exército, Marinha e Aeronáutica, que reconhecem que não cabe a essas três forças qualquer posicionamento político e ideológico.

“Cabe às Forças Armadas a defesa do estado brasileiro, o respeito à constituição e essas demissões é um diagnóstico disso. Ou seja, uma reafirmação de que as Forças Armadas não querem entrar nesse jogo político, não estão dispostos a isso, e que o governo precisa redirecionar seu comportamento no sentido de valorizar as instituições políticas e respeitar a constituição”.

Santana não acredita que, mesmo com a troca de ministro e dos comandantes das Forças Armadas, os substitutos terão maior alinhamento aos pensamentos do presidente Jair Bolsonaro. Pelo contrário. De acordo com ela, é possível que as Forças Armadas tenham um posicionamento até mais crítico. É devido a essa relação indigesta provocada pelo próprio presidente, que a cientista política acredita que Bolsonaro vai buscar outros meios de interlocuções com os militares. E esses meios não virão do alto escalão e do comando, mas pode vir de militares de patentes mais baixas ou de policiais.

“Pode ter esse alinhamento, fomentar movimentos grevistas por parte de Polícia Militar, mas não dentro das Forças Armadas, pelo menos eu não vejo essa disposição”, afirma e prossegue: “O Governo Bolsonaro é um governo frágil. Esse episódio de crise junto às forças armadas deixa muito mais às claras essa fragilidade política que ele tem. Então ele vai precisar partir para outras estratégias, se ele quiser realmente tentar a reeleição de 2022. Porque tudo indica que, com os altos números da pandemia, casos de óbitos, vacinação lenta, um auxílio emergencial muito baixo em relação ao que foi aprovado pelo congresso ano passado, baixa popularidade que ele perdeu nos últimos meses, isso denota muito mais as fragilidades. Então acho que ele vai ter muito mais dificuldades de implementar uma agenda de governo”, expõe.

Santana lembra que se Bolsonaro continuar com a atual postura, ele pode perder aliados que conquistou nos últimos meses, como, por exemplo, o Centrão.

“A gente tem uma situação, claro, que merece um alerta por parte das instituições políticas, congresso, supremo, a própria sociedade precisa ficar atenta a qualquer movimentação que não esteja em consonância com os princípios democráticos. E mais uma vez na espera que as forças armadas possa realmente defender o Estado brasileiro, a constituição e os princípios democráticos do país”, finaliza.

31 de março de 2021

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