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“Depoimento de Wajngarten foi o que mais fragilizou governo”. Veja balanço da CPI da Pandemia até agora

Wajngarten depôs à CPI da Pandemia

Depoimento de Wajngarten tem ataques entre senadores e pedido de prisão.Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Por Mariane Rodrigues

O ex-secretário de comunicação da Presidência da República, Fábio Wajngarten, é aquele que, literalmente, entrou de “gaiato no navio”. Ele não seria chamado para depor à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, mas foi demandado por falar demais, depois de uma entrevista concedida à Veja.

Até o momento, conforme afirmou o presidente da CPI Omar Aziz, foi o depoente que trouxe informações mais relevantes que fragilizam o governo: um documento que aponta que a Pfizer tentou acordo para compras de vacina com o Brasil, mas foi ignorada por diversas vezes pelo governo brasileiro.

O doutor em  Ciência Política, Ranulfo Paranhos concorda que o depoimento de Wajngarten foi aquele que mais comprometeu o presidente Jair Messias Bolsonaro, até o momento.

“A fala do representante da Pfizer foi muito importante, mas Wajngarten acho que fragilizou mais o governo, abriu mais brechas para esses pontos frágeis. A presença do Carlos Bolsonaro [nas reuniões de tratativas da vacina], a carta confirmada pelo representante da Pfizer, a tentativa dele [Wajngarten] de fazer uma gestão paralela da pandemia, em tentar entrar em contato com o representante [da Pfizer]. Passando por cima do ministério, ele se complicou muito. O depoimento dele foi enviado ao Ministério Público e pode terminar em processo”, comenta Paranhos.

A CPI da Pandemia começou há duas semanas. Já passaram por lá, os ex-ministros Henrique Mandetta, Nelson Teich, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, o ex-secretário de comunicação, Fábio Wajngarten, e o representante da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo.

Confira o balanço dos depoimentos

Henrique Mandetta 

ex-ministro Luiz Henrique Mandetta

Ex-ministro da Saúde depôs à CPI da Pandemia. Foto: : Jefferson Rudy/Agência Senado

O ex-ministro da Saúde prestou depoimento no dia 4 de abril. O principal ponto da sua declaração foi a existência de um papel não timbrado com sugestão de decreto para mudar a bula da cloroquina, indicando o remédio também para o tratamento da Covid-19. Ele teria visto esse papel, segundo ele, durante uma reunião realizada no Palácio do Planalto, onde também estava presente o filho do presidente e vereador pelo Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro. Na ocasião, de acordo com o ex-ministro, o presidente da Anvisa, Barra Torres, teria negado a mudança da bula.

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Ele também afirmou que não houve nenhuma iniciativa técnica por parte do presidente da República para enfrentar o novo coronavírus. “Era um outro caminho que ele decidiu dentro do seu convencimento, não sei se de outros assessores ou de alguém fora da pasta. Era até constrangedor o Ministro da Saúde seguir por um caminho e o presidente por outro”, afirmou.

O depoimento de Mandetta indicou que o Governo Federal  teria um possível aconselhamento paralelo para a condução da pandemia, que não compartilhava do mesmo direcionamento proposto pelo Ministério da Saúde durante sua gestão.

Mandetta saiu da pasta em abril de 2020, após sua posição conflitar com os entendimentos do presidente Bolsonaro, que era -e ainda é – contra as medidas de isolamento social.

Nelson Teich 

Teich na CPI da Pandemia

Nelson Teich depôs na CPI da Pandemia. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Para o doutor em Ciência Política, Rafael Moreira, os depoimentos de Nelson Teich e Mandetta não trouxeram novidades sobre as ações do governo federal para o enfrentamento da crise sanitária, mas foi uma oportunidade de documentar aquilo que já se sabia.

“O que veio do Mandetta e Teich são coisas que a gente já sabia, mas não tinha documentado, tal como o uso da cloroquina patrocinada pelo governo e a tentativa de mudança na bula do remédio”, considera o cientista político.

Mas ele afirma que o possível aconselhamento paralelo é uma novidade. “Mostra que o aconselhamento paralelo não estava necessariamente ligado as questões sanitárias. Pessoas que estavam, talvez, orientando o presidente, muito mais pela sua própria sobrevivência política e mobilização da sua base de apoio do que de fato de combate à pandemia”.

O depoimento de Nelson Teich ficou concentrado nos esforços do Palácio do Planalto em oferecer a cloroquina como remédio para tratamento da covid-19. A pressão para o uso do medicamento foi, inclusive, o motivo para a saída de Teich. Ele afirma que as pressões lhe tirariam a autonomia do cargo e que, sem independência, preferiu sair. Cientificamente, já foi provado que a cloroquina não tem eficácia para o combate à doença.

“O depoimento de Teich, em sua maioria, foi técnico. Diferente do Mandetta que é um quadro mais político.  Apesar de ser médico e também ter dado respostas técnicas, Mandetta também é político e sabe quais palavras colocar de modo a não se comprometer diretamente”, analisa Moreira.

Para Ranulfo, o comprometimento do Palácio do Planalto não depende muito dos depoimentos de Mandeta e Teich, visto que o presidente Jair Bolsonaro sempre foi claro nos seus posicionamentos contra as medidas sanitárias, como o isolamento social, o uso de máscara e o lockdown.

“O depoimento do Teich mostra o quanto o ministério não tinha autonomia para funcionar, tendo em vista o próprio presidente da República. Mas o posicionamento do Palácio do Planalto não depende muito dos depoimentos, porque o palácio foi muito claro o tempo todo. Não compramos a vacina chinesa, não ajudaremos o Doria, nós somos a favor da liberdade, a máscara restringe, contra o isolamento, contra o lockdown”, expõe o cientista político.

Marcelo Queiroga e Barra Torres 

CPi da Pandemia

Atual ministro da saúde, Marcelo Queiroga, depôs à CPI da Pandemia. Foto: Pedro França/Agência Senado/Agência Senado

O atual ministro da saúde, Marcelo Queiroga, esquivou de diversas perguntas na CPI da Pandemia e evitou comentar sobre o comportamento do presidente Jair Bolsonaro. A resposta de que não podia fazer juízo de valor foi a mais recorrente durante a sessão. Questionado sobre a eficácia ou perigos da cloroquina, o ministro se recusou a responder.

— Essa é uma questão técnica que será enfrentada pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde). Eu sou instância final decisória e posso ter que dar um posicionamento acerca deste protocolo assim que ele for elaborado — afirmou.

Pandemia

Barra Torres em reunião no Senado, em 2020. Ele depôs à CPI da Pandemia. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Já o depoimento presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, de acordo com o cientista político, Ranulfo Paranhos, foi importante porque se pautou pela ciência e demonstrou que a agência reguladora continua independente em suas decisões.

“Foi um depoimento eminentemente técnico e que deixou claro que o governo tem um comportamento negacionista, que a Anvisa não cede a qualquer tentativa de ingerência ou interferência e abriu um sinal vermelho para uma fragilidade do governo: a cloroquina. O governo tentou de alguma forma  mudar a bula. Não chegou a fazer isso, mas houve reunião com o presidente da Anvisa, que deixou muito claro a sua posição frente ao palácio do planalto”, avalia Ranulfo.

Barra Torres confirmou que houve uma tentativa de mudar a bula e que se negou a indicar a cloroquina para tratamento da Covid. Ele também afirmou que estava arrependido de ter aparecido em foto com o presidente durante uma manifestação que causou aglomeração durante a pandemia. “Eu acho que com ele tem um depoimento importante em direção à ciência”, complementa Ranulfo.

“O depoimento do diretor da Anvisa foi surpreendente e técnica. Ele tem mandato eletivo e não precisa ter comprometimento com a imagem dele se atrelando ao presidente o que deixa ele de maneira mais confortável para dizer algumas coisas. Faz críticas diretas ao presidente da República”, concorda o cientista político, Rafael Moreira.

Fábio Wajngarten e Carlos Murillo

Wajngarten depôs à CPI da Pandemia

Depoimento de Wajngarten tem ataques entre senadores e pedido de prisão.Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

A mentira foi o ponto chave do depoimento de Fábio Wajngarten. A sessão mais calorosa da CPI até o momento irritou senadores que o acusaram de mentir diante das respostas.

As perguntas ao ex-secretário de comunicação foram focadas na sua interferência para as negociações da venda de doses da vacina Pfizer. Ele foi chamado à CPI devido a uma entrevista concedida por Wajngarten à revista Veja no final de abril. Na entrevista que entrou em contato com a Pfizer para negociar as vacinas e chama a equipe do Ministério da Saúde de incompetente e que por isso houve atraso na entrega dos imunizantes.

O momento quando foi abordada a entrevista à Veja foi um dos mais calorosos da sessão. Isso porque o ex-secretário entrou em contradição com algumas declarações suas expostas pelo veículo de comunicação. À CPI, ele  negou guardar e-mails, registros telefônicos ou minutas de contratos trocados com a empresa norte-americana, ao contrário do que consta em sua entrevista na Revista Veja.

Em entrevista publicada pela revista Veja em abril, Wajngarten afirma que o acordo com a Pfizer não prosperou por “incompetência e ineficiência” da “equipe que gerenciava o Ministério da Saúde nesse período”. No entanto, durante a CPI da Pandemia, ele negou que tivesse chamado a equipe do ministério de incompetente.

Os senadores requisitaram à revista Veja a transcrição da entrevista publicada. A Revista Veja não enviou o áudio, em vez disso, publicou o conteúdo na internet e mostrou que o ex-secretário de comunicação chamou o ministério da saúde de incompetente.

“O depoimento de Wajngarten é marcado, principalmente, pela fragilidade, ou se a gente for mais claro, pela mentira. Ele foi flagrado em alguns momentos cometendo deslizes, tentando ser tão evasivo, a ponto de cair nas próprias armadilhas e depois desmentidos pela Veja”, afirma Ranulfo Paranhos.

“O do Wajngarten, a sua principal marca foi o cinismo. Foi completamente absurdo. O tipo de retórica que ele usava, para não citar, não mencionar ou não discordar em nenhum ponto do presidente da República, ficou até um certo constrangimento. E teve o ponto da contradição dele, sobre a revista veja, onde ele se colocou numa posição onde ele ou mentiu à Veja ou mentiu à CPI”, complementa Moreira.

Wajngarten disse à CPI que a Pfizer enviou uma carta para seis autoridades com o propostas para a compra de imunizantes e mostrou o documento. O representante da Pfizer confirmou que enviou a carta para as seis autoridades brasileiras para tratar das negociações da vacinação. Não somente isso, Carlos Murillo afirmou também que os primeiros contatos da empresa com o governo brasileiro ocorreu entre maio e junho de 2020. Houve três propostas em agosto, mas não obteve respostas do governo nem para negar, nem para aceitar o imunizante.

representante da Pfizer depõe na CPI

Carlos Murillo depôs na CPI da Pandemia. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

— Nossa oferta de 26 de agosto tinha uma validade de 15 dias. Passados os 15 dias, o governo brasileiro não rejeitou, tampouco aceitou a oferta — esclareceu Murillo.

A quarta tentativa foi o endereçamento da carta ao governo brasileiro, para as seis autoridades. Era setembro de 2020, a qual também não foi respondida naquele período.

“Mas ele [Wanjgarten] cometeu um erro muito grande com relação ao seu depoimento. Ele forneceu a cópia da carta que as tratativas com a Pfizer, para obtenção da vacina, começam em maio do ano passado. Se você tenta abrir diálogo em maio do ano passado e toda a discussão do Palácio do Planalto é que você tinha cláusulas leoninas, vimos que Pfizer tentou abrir.  Então teríamos a vacina antes do tempo que tivemos, antes até da Butantan. Isso se tornou quase que indefensável”, explica Ranulfo.

A CPI da pandemia ainda está no início. A princípio, serão, ao todo, 90 dias para apuração das ações ou omissões do Governo Federal diante da pandemia. A comissão terá que apurar ainda se houve desvios de recursos de verbas federais por estados e municípios.

Ainda não se pode bater o martelo sobre quais as consequências políticas da CPI para o presidente da República. É o que aponta o cientista politico, Rafael Moreira.

“É fato que alguns analistas têm repetido que “trata-se do começo do fim do governo Bolsonaro”, mas é preciso cautela nessa leitura, que reaparece de tempos em tempos, desde a saída de Sérgio Moro do governo federal. O
bolsonarismo tem uma alta capacidade de reorganização interna e de criação de novas narrativas para combater qualquer ameaça que abreviem o atual mandato. O potencial de estrago, porém, está dado. A briga, agora, será pela distribuição de forças entre aliados e rivais de Bolsonaro dentro da CPI”.

14 de Maio de 2021

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