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Nova Rota: projeto concede bolsas de estudos a ex-reeducandos para se reintegrarem à sociedade

Camila Felizardo

Camila é e beneficiária do programa de ressocialização e faz faculdade de Serviço Social na PUC de São Paulo. Foto: arquivo pessoal

Por Mariane Rodrigues

“O sistema carcerário é um sistema de morte. Um lugar onde suas capacidades mentais ficam inativas”. A afirmação é de Camila Felizardo. Hoje com 30 anos, a estudante de Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) viveu longos três anos de sua vida dentro de uma prisão. Ao ganhar a liberdade, viu-se perdida, pois as oportunidades para encontrar um trabalho eram ainda mais limitadas. Ela não sabia o que fazer.

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Mas foi no Projeto Nova Rota que Camila se encontrou. Foi através dele que ela conseguiu uma bolsa de estudos em Serviço Social numa das universidades mais conceituadas do país.

O Nova Rota é uma associação sem fins lucrativos, criada por ex-alunos da Universidade de São Paulo, que oferece bolsas de estudos, mentoria e apoio multidisciplinar a egressos do sistema carcerário.

O objetivo do projeto é investir na educação e na capacitação profissional de ex-reeducandos, para auxiliá-los a se reintegrarem à sociedade, reduzindo os obstáculos enfrentados por essa população, que tende a reincidir nos crimes, quando não encontram novas oportunidades fora das prisões.

Dentre as bolsas de estudos estão o custeio para cursos profissionalizantes, técnicos, universitários, de idiomas, reforço escolar, preparatórios para vestibular, pós-graduação, além de acompanhamento psicológico e até ajuda de custo para alimentação e transporte.

“A gente enxergou um público bastante desamparado que sofre um enorme preconceito e o índice dificultava ainda mais o processo de retomada da vida dessas pessoas do pós-cárcere. Não basta encarcerar pessoas, é preciso olhar para elas com um olhar de quem está afim de mudar, trazendo uma responsabilidade coletiva. A gente fala que é uma nova rota porque ela não anula o caminho anterior, mas é um novo caminho que vai ser traçado a partir dali”, afirma Amanda Barelli, mestre em Direito pela USP e colaboradora do projeto Nova Rota.

Conheça mais sobre o projeto aqui e saiba como colaborar aqui

Camila Felizardo foi a primeira beneficiária do projeto, que hoje já conta com cerca de 10 bolsistas, mas, segundo os colaboradores do Nova Rota, o programa tem mais de 50 pessoas envolvidas.

Felizardo conta que, ao sair da prisão, a primeira atitude que fez foi procurar a família. Mas a segunda, foi procurar um emprego. Encontrou como atendente em uma padaria, onde trabalhou por alguns meses, mas depois foi mandada embora.

“Não sabia o que fazer. Fiquei com medo de procurar emprego no campo formal de trabalho”. O motivo do receio, segundo Camila, está no antecedente. Ela explica que, como acontece com todos os sentenciados, foi acoplada à sua pena uma multa a ser paga à União.  A dívida dela era de R$ 9 mil. Enquanto não pagava, seus documentos, como título de eleitor e CPF ficaram bloqueados. “Esse é um processo [de bloqueio de documentos] que também me anulou dentro do campo formal de trabalho”.

Enquanto não resolvia sua situação, Felizardo trabalhou informalmente em uma serralharia de alumínio. Fez um curso de manicure. Há sete anos é no ramo de esmalteria que ela trabalha, enquanto estuda Serviço Social.  Para ela, o Nova Rota fez em sua vida o papel do Estado, ao  fornecer para ela acesso à educação.

“O projeto Nova Rota tem uma visão incrível de reinserção. Faz realmente o papel do estado, que é quem deveria nos dar esse acesso a educação, ao trabalho, a moradia, a todas as formas de seguridade social”, afirma a estudante, que também participa de grupos de pesquisas sobre o sistema carcerário feminino.

“A gente tem a esperança e vontade de sair, mas não sabe como será recebido aqui fora”

“O sistema carcerário é um sistema de morte. Um lugar onde suas capacidades mentais ficam inativas. Você não tem estímulo à cognição, à visão, para o olfato, são coisas repetitivas e a pessoa não evolui biologicamente, mentalmente e psicologicamente. São pessoas que são inativadas em vida. O sistema carcerário não ressocializa, piora a situação”, complementa Camila Felizardo.

Para o diretor da Nova Rota, Vitor Jardim, o comum é existir um ciclo que favorece que o ex-reeducando volte a delinquir. “Essas pessoas saem com uma série de compromissos com a família, com necessidade de renda e acabam de passar por um local que é dominado pelo crime organizado, que é o sistema carcerário no Brasil. Você tem todo um ciclo que favorece a reincidência, que não dá oportunidades e limita as oportunidades que são concedidas aos egressos do sistema carcerário”, afirma.

Camila quebrou esse ciclo. Através da educação e capacitação, ela pode mudar a rota e estabelecer uma nova jornada. Desta vez, ela garante, vai utilizar da profissão que escolheu para acolher outras pessoas.

“É uma forma de trazer um pouco de esperança, emancipação,  liberdade, oportunidade, equidade para a população da qual eu mesma represento. Quero, através da minha atuação profissional, fazer uma intervenção positiva e efetiva na vida dessas pessoas. É uma forma de poder transformar esse mundo. Foi o jeito  que eu achei para contribuir, como forma de gratidão pela segunda chance da vida que eu tive”, finaliza.

26 de Maio de 2021

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