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“Escolhi estar na política para provocar transformações”, diz vereadora trans e mais votada de Aracaju

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Linda Brasil é mestre em educação, defensora dos direitos humanos, e a primeira mulher trans eleita vereadora de Aracaju, sendo a mais votada. Foto: Marcelle Cristinne

Mariane Rodrigues

Mês de junho é o mês do orgulho LGBTQIA+ . O orgulho da comunidade é celebrado especificamente no dia 28 de junho. A data foi escolhida  em alusão ao episódio de protestos, após invasão truculenta de policiais a um bar gay, no bairro de Greenwich, em Nova York, em 1969. 

Leia também: “Direitos Humanos não são esmolas, mas a luta por uma vida digna”
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Mais de 50 anos se passaram desde o episódio e hoje as lutas pelos direitos LGBT são contínuas e estão espalhadas pelo mundo. Elas são muitas: desde a luta por acesso à educação, à saúde e a um emprego, até aqueles básicos, como o respeito por ser quem se é.

Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), no ano de 2020 foram registrados 175 assassinatos de mulheres trans e travestis no Brasil. A média, desde 2008, era de 122,5 assassinatos. Para a Antra, essa população vive um ciclo de exclusão que pode levar o indivíduo à morte, seja pelo suicídio, seja pela violência. Esse ciclo se inicia no seio familiar, passa pela exclusão escolar, que leva à exclusão social, que limita acesso às políticas públicas, por conseguinte dificulta ou elimina acesso ao mercado de trabalho, sofre violência institucional, e por fim, chega à morte.

O Ponto de Análise traz o relato de Linda Brasil. Ela é mestre em educação, defensora dos direitos humanos, e a primeira mulher trans eleita vereadora de Aracaju, sendo a mais votada dentre todos os candidatos no último pleito. Confira seu relato:

“Tenho orgulho de estar lutando para que pessoas LGBTQIA+, mulheres, negras e negros, pessoas em vulnerabilidade tenham condições de ocupar espaços na política, nas escolas e universidades, no mercado de trabalho”.

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Linda Brasil é mestre em educação, defensora dos direitos humanos, e a primeira mulher trans eleita vereadora de Aracaju, sendo a mais votada. Foto: Marcelle Cristinne

Eu me chamo Linda Brasil Azevedo Santos, tenho 48 anos. Estou Vereadora de Aracaju, sou mestra em Educação, defensora dos direitos humanos e ativista LGBTQIA+.  Nasci no município de Santa Rosa de Lima em Sergipe. Minha mãe é Maria Carmen Azevedo Santos, Carminha,  e meu pai é Apolinário José dos Santos. São pessoas da roça, da pequena agricultura familiar.

Estudei, o que na época era chamado de primário, até a 4ª série, neste interior do estado. Na quinta série vim para a capital.

Na escola, em Aracaju, a experiência já começou a ser marcada por perseguições, violências simbólicas e até física por eu ser uma criança muito alegre, que se identificava mais com as meninas do que com os meninos e não estava muito “enquadrada” no comportamento social esperado.

Daí em diante, foram anos de luta e superação. Fui emburrada compulsoriamente, como ocorre com 90% das pessoas trans. Portas de trabalho se fecharam quando eu resolvi fazer a transição para assumir minha identidade de gênero.

Saí do país e depois de passar por diversas situações de risco e de violência também fora, resolvi retornar e reescrever minha trajetória.  Antes de sair do país e quando estava na Itália, como boas referências guardadas em meu coração que me faziam pensar em retornar, eu sempre pensava em minha mãe e minhas irmãs. 

Buscava ler e manter contato com a produção do Instituto Salto Quântico, presidida pelo médium, orientador espiritual e escritor Benjamin Teixeira de Aguiar e seu Guia Eugênia-Aspásia, que traziam já na época, conteúdos de Espiritualidade Cristã. Falava da importância de respeitar a feminilidade e a face maternal de Deus através de Maria Cristo. 

Eram alentos em uma época difícil na Itália e que foram importantes para encontrar forças para fazer com que eu voltasse ao Brasil e buscasse uma nova fase de vida.

Retornei em 2006 e passei a tentar voltar ao mercado de trabalho, através de minha atividade de cabeleireira e maquiadora. E  fui encontrando um novo horizonte de possibilidades. Em 2012 resolvi tentar o Enem e reingressar na universidade (que abandonei ao sair do Brasil).

Em 2013, entrei no curso de Letras Francês e comecei a cursar as disciplinas. Na época, não havia a possibilidade de fazer a retificação do nome como há hoje.  Então, eu conversava com os/as professoras(es) solicitando para usar o nome social.

  Houve um episódio em que o professor não quis me chamar pelo nome social e me constrangeu em sala de aula. Aí passei a buscar direitos e estar mais atenta às violências institucionais e sociais. Consegui com muita luta e apoio de discentes e docentes e setores da sociedade que a Reitoria da UFS fizesse uma portaria, regulamentando o uso do nome social para pessoas trans, inserindo-nos e nos dando visibilidade nos trâmites internos discentes.

Nesta época conheci o coletivo de mulheres do Psol e comecei a entender mais sobre as bandeiras feministas, transfeministas. Foi quando decidi entrar mais na militância política. Mas, nesta época, nem sonhava em ser candidata. Assim comecei a entrar na vida política. A partir daí, fui conhecendo o movimento feminista, o PSOL e participando dos movimentos sociais.

A passagem pela universidade teve momentos de tensão e de luta contra preconceitos. Mas também foi neste ambiente que organizamos a resistência a isto e a propagação da necessidade do respeito às pessoas trans.

A primeira Semana de Visibilidade Trans  foi organizada no espaço da academia e tivemos a ajuda de muitos professores/as e funcionárias/os e alunas/os. Comecei assim a participar e criar um movimento de transformação de nosso cenário político e social na cidade.

E  iniciativas foram tomadas. Convidei pessoas para um projeto para dar assistência a pessoas LGBTQIA+ que resultou na fundação da Casamor. Fundei também  a AMOSERTRANS (Associação e Movimento Social de Transexuais e Travestis).

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Linda Brasil é mestre em educação, defensora dos direitos humanos, e a primeira mulher trans eleita vereadora de Aracaju, sendo a mais votada. Foto: Hiel Gomes

Entrei no Psol em 2015 e então fui convidada a  disputar uma vaga nas eleições. Em 2016, fui candidata, pela primeira vez, como vereadora. Obtive 2.308 votos e não fui eleita por causa da questão da legenda. Na ocasião tive mais votos que quatro vereadores eleitos.

Em 2018, fui candidata a deputada estadual, conquistando a confiança de 10.107 pessoas, e fui votada em todos os 75 municípios do Estado. Em 2020, fui a  1ª mulher trans eleita vereadora e a mais votada dentre todas candidatas e todos candidatos, agradecendo a confiança da população que permitiu existir este marco histórico na Câmara de Aracaju e para Sergipe.

Então posso dizer que fui escolhendo estar neste lugar da política para provocar mudanças e transformações. Contribuir para que pessoas LGBTQIA+ e todas pessoas que sofrem opressões tenham coragem para enfrentar o sistema.

Tenho orgulho de estar lutando para que pessoas LGBTQIA+, mulheres, negras e negros, pessoas em vulnerabilidade tenham condições de ocupar espaços na política, nas escolas e universidades, no mercado de trabalho.

Tenho este orgulho de atuar na direção de mudar legislações arcaicas, garantindo reconhecimento e respeito pelas suas vivências, garantindo vida digna, moradia, acesso à políticas públicas.

Todas essas formas já existem, mas a sociedade brasileira é governada pela elite do atraso, como diz o sociólogo Jessé Souza, que teima em não acertar as suas contas com a escravidão, genocídio da população indígena, genocídio da população LGBTQIA+. Então a gente ainda tem muita luta pela frente.

26 de junho de 2021

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