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“A transexualidade me salvou”. Conheça Naomi, mulher trans que transformou sua vida através da Educação

Transexualidade

Gabriela Naomi com certidão da mudança de nome. Foto: cortesia ao Ponto de Análise

Por Mariane Rodrigues

Mês de junho é o mês do orgulho LGBTQIA+ . O orgulho da comunidade é celebrado especificamente no dia 28 de junho. A data foi escolhida  em alusão ao episódio de protestos, após invasão truculenta de policiais a um bar gay, no bairro de Greenwich, em Nova York, em 1969. 

Leia também: “Direitos Humanos não são esmolas, mas a luta por uma vida digna”

Mais de 50 anos se passaram desde o episódio e hoje as lutas pelos direitos LGBT são contínuas e estão espalhadas pelo mundo. Elas são muitas: desde a luta por acesso à educação, à saúde e a um emprego, até aqueles básicos, como o respeito por ser quem se é.

Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), no ano de 2020 foram registrados 175 assassinatos de mulheres trans e travestis. A média, desde 2008, era de 122,5 assassinatos. Para a Antra, essa população vive um ciclo de exclusão que pode levar o indivíduo à morte, seja pelo suicídio, seja pela violência. esse ciclo se inicia no seio familiar, passa pela exclusão escolar, que leva à exclusão social, que limita acesso às políticas públicas, por conseguinte dificulta ou elimina acesso ao mercado de trabalho, sofre violência institucional, e por fim, chega à morte.

O Ponto de Análise traz o relato de Gabriela Naomi. Uma mulher trans, que tem ultrapassado todas as barreiras que lhe são impostas por ser quem é. Bióloga, palestrante, educadora, graduanda em pedagogia, foi justamente na educação que ela se encontrou. E agora leva essa mesma educação para outras pessoas.

“Não existe nada que pague a sua liberdade, o seu bem estar, de estar feliz dentro  do seu corpo e ser quem se é”.

transexualidade

Gabriela Naomi quebra barreiras do preconceito e exclusão social através da educação. Foto: cortesia ao Ponto de Análise

Meu nome é Gabriela Naomi, sou mulher trans e me entendo dessa forma desde 2017, mas essa vivência de trans me acompanha desde criança. A minha trajetória acadêmica começa já no período escolar. Eu não tinha muito apoio em casa e eu encontrava esse incentivo dentro da escola. Esse foi um dos motivos de eu ter decidido, mais futuramente, dar continuidade nos trabalhos na educação.

Venho de uma escola pública do interior de São Paulo e sempre tive um excelente desempenho, inclusive com algumas premiações. A minha cidade natal se chama Limeira, fica próximo à Campinas. E desde criança eu sempre gostei muito de bicho, natureza, sempre fui muito curiosa, de saber o porquê das coisas.

As aulas de ciência e biologia sempre foram as que me chamaram atenção. Quando chegou período de vestibular, eu trabalhava por dez horas ao dia, e à noite ia para a escola. Mesmo assim não desisti. Estudei por conta própria. Não fiz cursinho e prestei biologia em uma cidade vizinha. Passei no vestibular.

Da minha família eu sou a primeira pessoa a fazer ensino superior e em uma universidade pública. Para mim foi incrível. Mas eu senti muitas dificuldades por ser uma aluna de escola pública. Comecei a enfrentar alguns problemas, porque eu precisava trabalhar durante o dia para estudar pela noite. E o curso de biologia é muito exaustivo. Era noturno, por cinco anos. É um curso muito conteudista. Muitos estágios obrigatórios e de iniciação científica e de licenciatura e por isso tive algumas reprovações.

Muitas dificuldades por ser uma pessoa preta, por ser uma pessoa pobre. E, chegando em 2017 por ser uma pessoa trans. Então tive problemas para alterar o meu nome, problemas para me manter na faculdade, porque, por ser trans, eu e minha família tivemos um rompimento abrupto.

Eles pararam de me ajudar e comecei a trabalhar. Aos fins de semana fazia bico, demorei bastante para me formar, tinham vários empecilhos da parte burocrática da universidade que, não impediam, mas atrapalhavam.

A sorte é que eu participei do movimento estudantil, antes e durante esse período e eu tinha conhecimento básico sobre os meus direitos, onde eu podia reclamar, com quem conversar. Isso me ajudou muito a enfrentar essas questões dos meus direitos enquanto LGBT e perseverar bastante.

Demorei oito anos para concluir o curso e me formei em 2019. Trabalhei na faculdade em botânica, depois em biologia reprodutiva, fui para a educação e me formei na educação voltada para gênero e sexualidade, área que atuo atualmente, mas informalmente.

Sou consultora, palestrante, educadora, mas não estou na rede de educação formal, porque aqui onde eu moro tem uma questão religiosa muito forte. São muitas barreiras para se vencer até chegar a uma sala de aula. Estou fazendo uma vaquinha, financiamento coletivo, para fazer a cirurgia das cordas vocais, que é um procedimento simples, mas caro, mas que vai dar certo, tenho fé. 

Mas já consegui palestrar na USP, Unicamp, em empresas como a Microsoft, então para mim é muito importante realizar esse trabalho. Antes da pandemia, trabalhei com arte e espero voltar depois da pandemia.

Enfrentei, enfrento e enfrentarei obstáculos, muitas dificuldades, eu tenho consciência disso, mas em momento algum eu me arrependi, porque não existe preço, não existe nada que pague a sua liberdade, o seu bem-estar, de estar feliz dentro  do seu corpo e ser quem se é.

Eu tenho muito orgulho da minha trajetória, da pessoa que eu fui, da pessoa que eu sou e da pessoa que eu serei. Eu entrei novamente na graduação, vou fazer pedagogia, investir na parte da educação, pretendo fazer mestrado, doutorado e tudo mais o que tiver direito.

A transexualidade me salvou. Ajudou-me a me compreender quanto pessoa trans, mesmo em um país extremamente violento com todas as pessoas, principalmente com pessoas pretas, trans, mulheres, pobres que são as categorias onde me encaixo.

E dentro disso tudo ainda consigo encontrar paz, alegria e uma aceitação verdadeira, porque não vem do outro, vem de mim mesma. De me entender, me compreender e me respeitar.

26 de junho de 2021

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