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Segurança Pública

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Como a pandemia afetou a vida de policiais no Brasil em 2020?

Policiais morreram mais de covis-19 do que por mortes violentas em 2020. Foto: ascom Amazonas Via G1

Mariane Rodrigues

Policiais civis e militares do Brasil morreram mais pela Covid-19 do que por mortes violentas. É o que aponta levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nessa quinta-feira (16). A pandemia comprometeu a operacionalidade das polícias, devido aos centenas de milhares de afastamentos em decorrência da doença.

Leia também: Juventude masculina e negra. Veja perfil da violência letal no Brasil, segundo o Fórum de Segurança Pública

De acordo com o 15º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, ao todo, 716 policiais morreram em 2020 e os motivos variam desde confrontos em serviço, confrontos durante a folga, suicídio, e a covid-19.

Em cada quatro policiais civis e militares brasileiros um foi afastado do serviço em decorrência da doença provocada pelo novo coronavírus, o que equivale a 130.946 policiais afastados em algum momento da pandemia seja por confirmações da doença ou porque apresentavam sintomas. Dos 716 policiais mortos, 472 foram por causa da doença.

“Embora as edições anteriores do Anuário Brasileiro de Segurança Pública tenham considerado que vitimização policial se refere a mortes em razão de confronto, por lesões não-naturais ou por suicídio, a comparação com as mortes por Covid-19 é importante para destacar mais um aspecto da tragédia brasileira no enfrentamento à pandemia: houve mais mortes de policiais civis e militares da doença no Brasil em 2020 do que, conjuntamente, mortes reportadas por confrontos em serviço, por confrontos e lesões não-naturais fora de serviço e por suicídios”, aponta o levantamento.

Em 2020,  194 policiais civis e militares foram vítimas de Crimes Violentos Letais Intencionais na folga e em serviço e 50 vítimas de suicídios, um total de 244 policiais, ante 472 por causa da covid-19.

“Não se trata aqui de estabelecer causalidades diretas entre a ocorrência da pandemia e o aumento na vitimização policial, mas de ressaltar a sobrecarga sem precedentes nas instituições pelo impacto da pandemia de Covid-19. Muitos profissionais de outras categorias puderam realizar o trabalho remotamente, mas aqueles da segurança pública, por estar na categoria de serviço essencial, não tiveram essa opção”, reforça o estudo.

Durante a pandemia do novo coronavírus, os policiais continuaram nas ruas, tanto em rondas ostensivas, quanto nos trabalhos de investigação. Assim, eles permaneceram expostos aos riscos de contágios. Ainda durante 2020, foram acrescidas aos policiais outras atribuições, como o controle da circulação de pessoas fora do horário permitido pelos estados e municípios e  fiscalização de estabelecimentos comerciais como bares e restaurantes, em atendimento aos decretos.

“No início, como aconteceu com muitas pessoas, [os policiais] não acreditavam na gravidade da pandemia e podem ter subestimado as medidas de proteção que deveriam ter sido adotadas. Como agora o “inimigo” era invisível, a dimensão do risco para os policiais se tornou
mais clara apenas quando o número foi se tornando expressivo e os canais oficiais das instituições policiais começaram a assumir o luto pela perda de membros da tropa decorrentes da Covid-19”, expõe o Fórum de Segurança Pública.

A pesquisa entrevistou profissionais da Segurança Pública entre abril e maio de 2021. Os resultados mostraram que  29,7% dos profissionais de segurança pública foram infectados pelo coronavírus e 85% tinham medo de ser infectado em razão do seu trabalho.

Policiais negros, fora do horário de serviço são os que mais morrem no Brasil e por arma de fogo

As mortes de policiais civis e militares em decorrência de CVLIs (Crimes Violentos Letais Intencionais), em serviço e fora de serviço aumentaram 12,8% em 2020 em relação ao ano anterior. As vítimas, em 98,4% dos casos, eram do sexo masculino. Fora 131 mortes fora do serviço, em crimes violentos, e 51 durante o serviço.

“Ou seja, não é o dia a dia do trabalho policial, o cumprimento ordinário da função que mais vitimiza policiais brasileiros e sim consequências indiretas de ser um profissional de segurança pública no Brasil”, afirma a pesquisa.

O levantamento aponta como fator também para o número de mortes fora do serviço, a realização de atividades extras de segurança para complementar a renda durante a folga, os impactos da atividade na saúde mental do trabalha dor (estresse, carga horária excessiva, poucas horas de sono, pouco tempo de lazer e com a família, endividamento, entre outros), e ter a arma de fogo como instrumento de trabalho, além de ações comuns ao profissional que incitam posturas reativas diante do risco.

Segundo os dados, do total de vítimas por violência, 85% dos policiais foram mortos por arma de fogo e 62% eram negros. “Os dados mostram que a composição das polícias brasileiras é de 56,8% de pessoas brancas e 42 % de pessoas negras. “Como na população em geral, policiais negros são mais vulneráveis à violência letal”.

Em relação aos suicídios de policiais, houve redução de 15,6% em comparação com 2019. “No entanto, esse é um tipo de informação que costuma ser subnotificada pelo tabu existente em torno do suicídio na população em geral, mas principalmente entre policiais, universo no qual as questões de saúde mental e sofrimento ainda são muito mal acolhidas e trabalhadas. As instituições policiais têm muita dificuldade em sistematizar esses dados e, em alguns estados, sabendo que os policiais perderão o direito ao seguro de vida nos casos de suicídio, fazendo com que essas
informações acabem por nem serem oficialmente comunicadas”.

O Fórum, ao divulgar o Anuário, considera o ano de 2020 como aquele que foi um desafio “sem precedentes”. “O que esperar e como lidar com a pandemia de Covid-19 que, até hoje, tirou a vida de mais de 500 mil pessoas no país”, questiona.

“A gestão da crise sanitária é marcada por polêmicas, controvérsias e, muitas vezes, manobras que acabaram por contribuir ainda mais para a perda de vidas. No campo da segurança pública, a pressão, em vários estados, pela testagem em massa e pela inclusão de seus profissionais nos grupos prioritários de vacinação teve resultados, ainda que tardios. Esperamos que, com o avanço da imunização desses profissionais, não tenhamos tantas perdas em 2021”.

16 de julho de 2021

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